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Orlando, Virginia Woolf (III)

Virginia Woolf & Sir Leslie Stephen, seu pai | Wikimedia

Virginia Woolf & Sir Leslie Stephen, seu pai | Wikimedia

“Pouco a pouco Orlando começou a sentir que havia algumas diferenças entre ela e os ciganos, o que a fazia hesitar, às vezes, em casar-se e fixar-se com eles para sempre. A princípio, tentou explicar-se, dizendo que provinha de uma antiga e civilizada raça, ao passo que esses ciganos eram um povo ignorante, pouco melhor que os selvagens. Uma noite, como a interrogassem sobre a Inglaterra, não pôde conter certa vaidade, ao descrever a casa em que nascerá, casa que tinha 365 dormitórios e era propriedade de sua família havia quatrocentos ou quinhentos anos. Seus ancestrais eram condes ou mesmo duques, acrescentou. E ao dizê-lo notou que os ciganos estavam contrafeitos, mas não zangados como antes, quando tinha exaltado a natureza. Agora estavam corteses, mas preocupados, como gente de fina educação, quando um forasteiro vem a revelar seu baixo nascimento ou sua pobreza. Rustum acompanhou-a fora da tenda, e disse-lhe que não se preocupasse com o fato de seu pai ser duque e possuir todos os dormitórios e móveis que ela havia descrito. Ninguém, por isso, pensaria mal dela. Apoderou-se então de Orlando uma vergonha que antes nunca sentira. Evidentemente, Rustum e os outros ciganos pensavam que uma ascendência de quatrocentos ou quinhentos anos era a mais modesta possível. A deles remontava pelo menos a uns dois ou três mil anos. Para os ciganos, cujos ancestrais construíram as pirâmides, séculos antes do nascimento de Cristo, a genealogia dos Howards e Plantagenetas nao era nem melhor nem pior que a dos Smiths e dos Jones: ambas eram insignificantes. Além disso, se um pastorzinho tinha uma linhagem tão vetusta, nada havia de especialmente memorável ou desejável numa velha estirpe: vagabundos e mendigos também a possuem. E assim, embora fosse extremamente cortês para falar abertamente, era claro que o cigano pensava não haver mais vulgar ambição que possuir centenas de dormitórios (conversavam no alto de uma colina, era de noite, as montanhas levantavam-se ao redor), quando a terra inteira é nossa. Do ponto de vista de um cigano, um duque, entendeu Orlando – não era mais que um aproveitador ou ladrão, que arrebatara terra e dinheiro a gente que considerava essas coisas de pouco valor, e não pensara em coisa melhor do que construir 365 dormitórios, quando um seria bastante, e nenhum, ainda melhor. Ela não podia negar que seus antepassados tinham acumulado campos sobre campos, casas sobre casas, honras sobre honras; no entanto, nenhum deles tinha sido santo, herói, ou grande benfeitor da humanidade. Nem podia deixar de reconhecer (Rustum era muito cavalheiro para insistir, mas ela compreendeu) que qualquer pessoa que fizesse agora o que seus antepassados tinham feito há trezentos ou quatrocentos anos atrás devia ser denunciada – principalmente por sua própria família – como um vulgar arrivista, um aventureiro, um nouveau riche.”

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